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27 de dezembro de 2011

Salvador, mas não Senhor?

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Escrito por: Michael Horton

O anunciado “debate senhorio-salvação”, a visão amplamente sustentada de que Jesus pode ser o Salvador de uma pessoa sem ser o seu Senhor, está finalmente recebendo a crítica que merece. Contudo, há perigos em ambos os lados deste debate.

Por um lado, há aqueles que afirmam que uma pessoa pode se virar para Cristo em fé sem nunca se submeter ao Seu senhorio. Somos salvos, eles dizem, fazendo de Cristo Salvador, não O fazendo Senhor. O outro lado reage dizendo que isso é “fé do diabo” — isto é, o tipo de “fé” da qual Tiago falou quando perguntou retoricamente, “Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” (Tiago 2:14). A fé salvadora inclui não apenas a dependência em Cristo para a libertação do julgamento, mas compromisso com Cristo e submissão ao Seu senhorio.

No caso daqueles que negam a necessidade de “fazer de Cristo, Senhor”, deveríamos responder, em primeiro lugar, concordando que não somos salvos “fazendo de Cristo, Senhor”. Mas também não somos salvos “fazendo de Cristo, Salvador”. Não fazemos nada de Cristo! Ele é Salvador e Ele é Senhor sem levar em consideração o que pensamos ou fazemos dEle. Na verdade, é porque Ele é Salvador completamente à parte de nossa atividade que somos salvos em primeiro lugar. Ele veio a nós “estávamos mortos” (Efésios 2:5). Ele nos regenera, nos dá o dom da fé e, então, nos justifica através da fé em Cristo. A escola de pensamento “fazer dEle seu salvador” adere ao que tem sido chamado “regeneração que provém de decisão”. Para muitos, é esta “pequena” obra que fazemos que se torna merecedora da vida eterna.

Uma segunda falha no ensino “Salvador, mas não Senhor” é o recorrente erro wesleyano de tornar justificação e santificação dons que são separadamente obtidos através de atos separados de fé. De acordo com as Escrituras, há um ato de fé que nos une a Cristo e, uma vez unidos a Ele através deste ato de fé, tanto a justificação (a declaração de justiça de uma vez por todas) quando a santificação (um processo gradual, lento e doloroso de crescimento na justiça) se tornam nossos em Cristo. Somos justificados de uma vez, mas só somos santificados em um processo gradual. Contudo, tanto a declaração quanto o processo são dados apenas através da mesma condição de fé em Cristo somente (Romanos 8:30; 1 Coríntios 1:30; Efésios 2:8-10).

Por isso, neste campo deveríamos insistir na união com Cristo como a obra soberana de Deus em não apenas tornar possível uma nova vida, mas criá-la onde nenhuma causa existia além da Sua própria vontade e esforço.

É aceito pela razão que se nós “fazemos de Cristo, Salvador”, podemos também determinar se permitiremos que Ele seja nosso Senhor. Mas a Bíblia não fala sobre permitir que Ele seja ou faça isso ou aquilo. “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade” (Filipenses 2:13). Conseqüentemente, é inevitável que a árvore boa produza bons frutos. Aqueles a quem Deus regenera tornam-se árvores vivas. “Não fostes vós que me escolhestes a mim”; disse Jesus, “pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça” (João 15:16). Quando a salvação é vista como programa de homem, é deixado para o homem escolher se deixará Deus fazer isso ou aquilo, mas quando é vista como programa de Deus, há uma confiança e uma certeza que ninguém a quem Deus regenera será chamado de “cristão carnal”. Lutero disse, “Se as obras e o amor não florescerem, não é fé genuína, o evangelho ainda não ganhou posição segura, e Cristo não é ainda corretamente conhecido”. Novamente, se temos Cristo, temos Sua santidade imputada (justificação) como também Sua santidade transmitida (santificação). Sem o sentido de uma, não pode haver sentido da outra.

Ao mesmo tempo, no entanto, há um perigo igual quando reagimos contra esta falsa mensagem: enfatizar a inevitabilidade do fruto a ponto de subestimar a realidade da pecaminosidade em andamento. Novamente, é “simultaneamente pecador e justificado”. Calvino nos preveniu a esse respeito. Existe a igreja visível, constituída de todos os cristãos professos de todos os tempos e lugares e, então, existe a igreja invisível, constituída de todos os verdadeiros crentes. Para pertencer à primeira, uma pessoa precisa confessar a Cristo, ser batizada, e receber a Santa Comunhão. E aceitamos todos em nossa congregação que pertencem à igreja dessa forma, quer pareçam ou não possuir o zelo ou grau de compromisso que esperaríamos. Visto que definitivamente não podemos saber o número de crentes genuínos (igreja invisível), não devemos nos tornar “polícia dos frutos”. Nas próprias palavras de Calvino, “Saber quem são seus é uma prerrogativa que pertence unicamente a Deus (2 Timóteo 2:19)…Porque aqueles que parecem totalmente perdidos e acima da esperança são, pela Sua bondade, chamados de volta ao caminho; enquanto aqueles que, mais do que os outros, parecem estar firmes, freqüentemente caem”.

Há ainda outra falha mais crítica, como a vejo, com algumas versões do “senhoria salvação”. Isto é, a tendência de alargar a definição de fé ao ponto onde realmente se torna uma obra. Por exemplo, os Reformadores definiram fé como conhecimento (compreensão dos fatos do evangelho), aceitação (ser convencido de que eles são verdadeiros), e confiança (confiar a salvação da alma a Cristo com base no conhecimento e aceitação). Apesar disso, um proponente dominante do “senhorio salvação” escreveu “a fé circunda a obediência” e que a confiança (terceiro aspecto da fé) “é a determinação da vontade para obedecer à vontade”. Pode bem ser um caso de semântica aqui, mas quando estamos falando do maior e mais santo assunto de todos das Escrituras, cada palavra é importante. A fé não circunda a obediência. Este é o ponto do apóstolo Paulo em Romanos 4, e, quanto à questão, por todos os seus escritos: Somos justificados pela graça através da fé — não através da obediência. Assim, quando fazemos da obediência um aspecto da fé, maculamos a fé e as obras, a justificação e a santificação. Uma vez justificados, a fé e as obras não são divergentes — a primeira produz as últimas. Porém, a fé é sempre divergente do mérito. O fruto que observamos ou deixamos de observar nunca pode ser usado como uma vara de medida; neste caso, a fé produz mérito em vez de obras, e isso é claramente não escriturístico. Justiça de obras pode facilmente se confundir com “fé” quando a fé é definida como se circundasse a obediência. Além disso, confiança justificadora não é “a determinação da vontade em obedecer à verdade”, mas a confiança que Deus nos dá de que Cristo já cumpriu nossa obediência. Estas palavras são, de fato, importantes.

Todavia, embora a fé não circunde a obediência, ela a produz. E, embora a confiança certamente não seja “a determinação da vontade em obedecer à verdade”, confiar em Cristo pela fé apenas inevitavelmente levará a uma nova vontade de obedecer à verdade. Para o campo “Salvador”, mas não “Senhor”, deve haver um reconhecimento de que a fé inevitavelmente produz obediência devido à iniciativa soberana de Deus (em vez de uma pessoa fazê-lo Senhor). E para a escola “senhorio salvação”, deve haver o reconhecimento de que, embora a fé inevitavelmente produza obediência, a fé não é, apesar disso, obediência.

A Reforma realmente respondeu esta questão de uma forma às vezes negligenciada por ambos os lados do presente debate. Por exemplo, Lutero falou sobre sermos justificados só pela fé, mas não pela fé que está só. Àqueles que adicionariam à fé um elemento de obediência ativa (outro que não a de Cristo), os Reformadores repreenderiam, “Fé apenas!” Mas aos antinomianos (i.e., aqueles negariam o efeito da fé salvadora), eles insistiriam que a fé verdadeira nunca é isolada. Isso, de fato, é a semente que cai no solo rochoso ou é sufocada pelas ervas daninhas. Outra definição da posição Reformada é expressa no Catecismo de Heidelberg. Somos advertidos contra qualquer perfeccionismo, “Até mesmo o melhor que fazemos nesta vida é imperfeito e manchado com o pecado”, fazendo com que toda obediência seja, na melhor das hipóteses, imperfeita. Isso, naturalmente, é consistente com Isaías 64:6, onde nos é dito, “todas as nossas justiças são como trapo da imundícia”. Mesmo assim, o Catecismo apressa-se em responder à pergunta, “Este ensino não faz com que as pessoas se tornem indiferentes e más?” “Não. É impossível que aqueles enxertados em Cristo pela fé verdadeira, não produzam frutos de gratidão”.

Eis aqui, então, dos dois corrimões da Reforma: somos justificados unicamente pelo conhecimento, aceitação e confiança na pessoa e obra de Jesus Cristo. Porém, qualquer pessoa justificada, foi regenerada, enxertada na vida de Cristo, e frutos de gratidão inevitavelmente se seguirão. Sem um interesse no Salvador e na Sua Palavra e sacramentos, não há vida. O senhorio de Cristo não é uma opção para os cristãos de primeira classe, mas uma inevitabilidade para todos os que compartilham Sua vida.

 

Fonte: As Doutrinas da Maravilhosa Graça, Michael Horton, Editora Cultura Cristã, páginas 169-173.



Sobre o Autor

Michael Horton





 
 

 
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