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9 de fevereiro de 2012
 

Sozinho, mas Nunca Sozinho

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Escrito por: Vincent Cheung
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Na minha primeira defesa, ninguém apareceu para me apoiar; todos me abandonaram. Que isso não lhes seja cobrado. Mas o Senhor permaneceu ao meu lado e me deu forças, para que por mim a mensagem fosse plenamente proclamada e todos os gentios a ouvissem. E eu fui libertado da boca do leão. (2 Timóteo 4.16-17)

Deus ordenou que seres humanos formem comunidades e tenham comunhão uns com os outros. Assim, homens e mulheres se juntam para formar famílias, várias sociedades, e até mesmo nações. Deus chama seus escolhidos dessas famílias e nações, de forma que eles possam ter comunhão consigo mesmos e com Jesus Cristo, e também uns com os outros. A “igreja” é a sociedade de crentes em Jesus Cristo, mas a palavra pode ser usada de várias formas diferentes. Podemos nos referir a todos aqueles que foram escolhidos para a salvação por meio de Jesus Cristo, incluindo aqueles que estão na terra e aqueles que estão no céu. Ou, podemos limitar o termo somente àqueles que professam o Senhor Jesus na terra. Quando usado num sentido ainda mais limitado, a palavra refere-se a um ajuntamento local de crentes. Isto é, nesse sentido limitado, cada congregação local é uma igreja. Deus ordenou que houvessem comunidades locais onde o seu povo pudesse adorar, aprender e servir juntos.

Não há dúvida que a igreja local é uma instituição ordenada por Deus. Sua importância merece ênfase. Dito isso, teólogos e pregadores frequentemente exageram o caso com afirmações que não possuem nenhum suporte bíblico, ou que são baseadas em inferências que vão muito além do que passagens bíblicas relevantes permitem. Eles dizem coisas sobre a importância da comunidade local e da obrigação de membresia e frequência eclesiástica que são alheias à Bíblia, que não podem ser validamente inferidas dela, e que não passam de invenções. Isso não produz uma doutrina mais segura, mas falsa doutrina. O resultado não é uma comunidade forte e serviço fiel a Jesus Cristo, mas uma teologia que está focada no homem, uma atitude que é dependente do instrumento humano, além de fraqueza e incredulidade generalizada nos cristãos.

Por exemplo, afirma-se com frequência que um cristão nunca pode desenvolver melhor seu conhecimento bíblico lendo livros em casa do que ouvindo sermões na igreja. Contudo, não existe nenhuma evidência, quer bíblica ou não, para essa visão. De fato, parece que a afirmação não é necessariamente verdadeira ou mesmo completamente falsa, visto que há bons argumentos para dizer que uma pessoa pode desenvolver tanto a profundidade como a amplitude do seu conhecimento bem mais eficazmente lendo em casa do que ouvindo a sermões na igreja.

Em algumas sociedades, praticamente qualquer um pode acessar os escritos de Agostinho, Calvino, Turretin, e assim por diante. Em termos de conhecimento e doutrina confiável, quão provável é que o pastor em alguma igreja local possa pregar sermões que possam rivalizar com os escritos deles? Quão provável é que um pastor local possa pregar sermões que rivalizem com os de Spurgeon? A verdade é que, em nossos dias, é bem mais provável que uma pessoa se desvie doutrinariamente indo à igreja do que ficando em casa lendo autores confiáveis como Calvino e Spurgeon.

A afirmação que é superior ouvir sermões na igreja é frequentemente acompanhada por declarações no sentido que “há algo simplesmente diferente” e que “há algo nisso” que está indisponível à pessoa que fica em casa e lê. Mas a menos que esse “algo” extra seja definido, e a menos que haja evidência bíblica para apoiar sua presença na igreja e sua ausência em casa, então a ideia equivale a mera superstição. A palavra de Deus é poderosa e eficaz em qualquer situação, o Espírito está com todo crente, e o conhecimento não é menos verdadeiro e útil simplesmente por ter sido adquirido em estudo privado.

Antes, devemos admitir que, se uma pessoa possui pelo menos habilidades medianas de leitura, e se ela tem a disciplina de realizar estudos privados, então é muito provável que ela ganhará muito, muito, muito, muito mais conhecimento bíblico lendo livros em casa do que ouvindo sermões na igreja. Mesmo que a igreja forneça classes onde a Escritura seja exposto em grande detalhe, isso ainda não pode se comparar à profundidade e amplitude que pode ser alcançada por um estudante determinado que segue um programa vigoroso de estudos privados. É tolice e desonestidade dizer o contrário. É verdade que muitas pessoas não possuem habilidades de leitura adequadas e que muitas pessoas não têm a disciplina de seguir estudos privados. Mas então o problema está nesses indivíduos, e não diz nada sobre se é melhor ler livros ou ouvir sermões. De fato, as mesmas pessoas podem ter habilidades de escuta ainda piores, e embora careçam de disciplina, ainda pode ser mais fácil seguir estudos em casa do que ir à igreja.

A abordagem correta é admitir a verdade, que a leitura e os estudos privados têm as suas vantagens, e ou ouvir sermões na igreja também. Quando diz respeito a crescer em conhecimento e entendimento, ler livros de autores confiáveis é provavelmente bem mais eficaz do que ouvir sermões na igreja. Isso é especialmente provável dada a condição dos pastores e igrejas contemporâneas. Contudo, os cristãos devem então ser lembrados que crescer em conhecimento não é a única razão para membresia e frequência eclesiástica.

Outras razões para frequentar a igreja inclui adoração e culto corporativo. Todavia, declarações exageradas também são feitas sobre isso. Em seu zelo para encorajar membresia, frequência e participação, os líderes cristãos devem ser cuidadosos para evitar fazer alegações e ameaças que não possam ser apoiadas pela Escritura. Muitas, se não a maioria das declarações sobre o que os cristãos devem fazer nessas áreas são exageradas, e não podem ser validamente inferidas da Bíblia.

Algumas vezes eles pensam que uma mera menção de Hebreus 10.25 é suficiente: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns”. Mas isso não é suficiente, pois esse versículo tem um contexto particular e refere-se a pessoas que tinham parado de se reunir por uma razão particular. Se deve ser usado em algum contexto diferente e em referência a pessoas com motivos e razões diferentes, e se deve ser usado até mesmo para extrair regras e ameaças, então é necessário fornecer justificação sólida para isso. Caso contrário, o maior perigo para a igreja não é mais a baixa frequência de membros, mas esses fariseus modernos que impõem suas tradições humanas sobre o povo de Deus e que ameaçam suas almas por abandono.

Como outro exemplo, algumas vezes é dito que uma pessoa não pode crescer em santidade sem uma comunidade de pessoas da mesma opinião para encorajá-lo e admoestá-lo. De novo, existe suporte bíblico para dizer que uma comunidade poderia ajudar, mas não há nenhum suporte bíblico para a afirmação que uma pessoa não pode ter sucesso sem a ajuda de uma comunidade. É dito que uma pessoa que precisa prestar contas a uma comunidade com maior probabilidade se conformará a um padrão de vida santa. Contudo, podemos replicar, é também possível que ele se tornará um hipócrita religioso, desenvolvendo uma aparência externa de santidade, sustentada por orgulho e desejo de aprovação. É dito que Deus usa instrumentos humanos para salvar os homens de cair. Mas é antibíblico afirmar ou implicar que Deus irá ou deve sempre usar instrumentos humanos; de fato, é claro a partir da Escritura que ele não o faz. Não são os homens que nos guardam de cair, mas Deus. Algumas vezes ele usa instrumentos humanos; outras não. Afirmar a importância da comunidade sobre a base de uma visão exagerada dos intrumentos humanos leva a regras e ameaças que não possuem garantia bíblica. E de novo, esse tipo de teologia se expõe à condenação de Cristo contra os fariseus e judeus.

Então, há a ênfase sobre a “equipe ministerial”. De novo, o problema não está no ensino da cooperação, mas em exagerar a sua importância e aplicação. A Bíblia de fato ensina que os cristãos deveriam trabalhar uns com os outros e respeitar as habilidades espirituais que Deus nos deu.

Por exemplo, considere o que Paulo ensina em 1 Coríntios 12. Usando o corpo humano como uma metáfora, ele escreve que o olho não pode dizer à mão, “não preciso de você” (v. 21). Aplicando isso aos dons espirituais que ele lista antes nesse capítulo (v. 8-10), entendemos que ele quer dizer que uma pessoa com um dom de profecia não pode dizer a uma pessoa com o dom de dura, “não preciso de você”. O “preciso” aqui é usado num sentido específico. Ele escreve: “O corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros”. Isto é, sua preocupação é por uma igreja saudável e completa. E quando isso está em vista, então há um “preciso” para todo membro. Uma pessoa não pode fazer tudo. A pessoa que tem o dom de profecia, mas não o dom de curar, pode profetizar, mas não pode curar o doente,

Não devemos exagerar o que isso significa para a equipe ministerial. Embora a pessoa que tenha o dom de profecia não possa realizar a função de outra pessoa, ela ainda pode realizar a função para a qual foi capacitada. Isto é, ele não pode dizer ao que tem o dom de cura, “não preciso de você”, se o contexto é a saúde de uma igreja completa, mas como um indivíduo, a pessoa que tem o dom de profetizar pode fazer isso quer esteja associada ou não com a pessoa que tem o dom de curar, ou na verdade, com qualquer outra pessoa. Da mesma forma, a pessoa que tem o dom de pregar, ou escrever, ou cantar, tem a habilidade de fazê-lo quer esteja associada ou não com alguma igreja ou outra pessoa. Portanto, alargar a ideia de “preciso” além das restrições do contexto bíblico podem levar a um ensino exagerado sobre equipe ministerial.

O ensino é algumas vezes tão exagerado que é como se um ministério solitário fosse sempre errôneo, mesmo pecaminoso, e até mesmo condenado ao fracasso. Algumas vezes é sugerido que um ministro ou crente sempre fracassará se estiver sozinho. Contudo, esse ensino não pode ser derivado da Escritura; em vez disso, é uma manifestação de fraqueza e incredulidade.

Costuma-se dizer que deveríamos olhar para Jesus como nosso modelo, e até ele escolheu discípulos para ficar em torno dele. Mas essa é uma visão equivocada do seu ministério, visto que é mais fácil argumentar que eles o atrapalharam em vez de ajudar. Vez após vez, o Senhor os repreendeu pela sua falta de fé e entendimento. Algumas vezes eles foram até usados pelo diabo para tentar o Senhor a pecar, como quando pediram permissão para descer fogo do céu e consumir aqueles que rejeitaram o seu ministério, e quando Pedro insistiu que ele não seria morto e ressuscitado dentre os mortos.

Então, no momento mais crucial, quando Jesus pediu aos discípulos para orar com ele antes da sua prisão, eles adormeceram. E após o seu aprisionamento, eles fugiram e o abandonaram. Ele sabia que tudo isso aconteceria, e disse: “Aproxima-se a hora, e já chegou, quando vocês serão espalhados cada um para a sua casa. Vocês me deixarão sozinho. Mas eu não estou sozinho, pois meu Pai está comigo” (João 16.32). Se aspiramos ser como Jesus, então paremos de fazer escusas, e paremos de codificar nossa fraqueza e incredulidade em doutrina. Em vez disso, estejamos dispostos a trabalhar com outros, mas também aspiremos ser capazes de permanecer sozinho.

Isso é especialmente importante para um líder cristão. Ele não deveria precisar de uma comunidade de crentes para segurá-lo na fé. Antes, ele deveria ser capaz de, sozinho, levantar uma congregação cheia de medo e desencorajada. De fato, ele deveria ser capaz de permanecer fiel e destemido no Senhor mesmo que toda a comunidade cristã e não cristã se reunissem contra ele, para se opor aos preceitos e mandamentos do Senhor. Se um ministro do evangelho é capaz de atingir isso é uma questão, mas não existe nenhuma garantia fazer uma questão de doutrina o dizer que é impossível atingir isso.

Algumas vezes é a vontade de Deus que um homem permaneça só. Isso é inegável. Como Paulo escreveu, “Na minha primeira defesa, ninguém apareceu para me apoiar; todos me abandonaram”. À luz disso, é uma injustiça grosseira aos crentes exagerar a doutrina da comunidade e cooperação, pois poderia deixá-los confusos e despreparados se alguma vez forem deixados sós. Em vez disso, devemos ensiná-los que Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de poder, de amor e de uma mente sã. Um cristão pode permanecer só, mesmo quando todos os outros o tiverem abandando, pois o Senhor permanece com ele, e ele pode fazer todas as coisas por meio de Deus que o fortalece.

 

Fonte: Reflections on Second Timothy

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto



Sobre o Autor

Vincent Cheung
Vincent Cheung é autor de trinta livros e centenas de palestras sobre uma gama de assuntos em teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmivisão bíblica como um sistema de pensamento abrangente e coerente, revelado por Deus na Escritura. Vincent Cheung reside em Boston com sua esposa Denise.



 
 

 
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